Lygia Clark

Por Lygia Clark.

 

Desenvolvendo a minha fase sensorial na “nostalgia do corpo” – em que o objeto dado ainda era um suporte – o homem encontrou o seu próprio corpo nas sensações táteis. Acabou por “incorporar” o objeto fazendo-o assim desaparecer. É nesse momento que o homem assume a sua própria eroticidade: ele mesmo passa a ser o próprio objeto da sensação. O erótico vivido como “profano” e a arte vivida como coisa “sagrada” à parte, se fundem como uma experiência única. É uma tentativa de integrar a própria arte “colando-a” à vida. Dou para isso simples lençóis de plásticos com sacos costurados nas extremidades. Cada pessoa o experimenta como quer, inventado com ele proposições diferentes e convidando outros a participar. O toque é no próprio corpo. Toque a dois, a três ou a maior número de pessoas que participam da experiência. Nasce assim uma arquitetura viva em que o homem através da sua expressão gestual constrói aquela como sistema biológico vivo, verdadeiro tecido celular. Essa é a espécie de proposição a que cheguei finalmente: somente na medida em que os outros a expressam – é que me sinto cheia de significado. O sentido que lhe emprestam é o único que ela passa a ter. Quando várias pessoas a expressam ela adquire um sentido coletivo tribal. Ela pode ser expressa em qualquer lugar: nos parques, na rua ou mesmo dentro da sua sala. Não há local a priori para que ela se dê.

Só existe environment na medida em que a expressão coletiva tem lugar. Ele é criado pelo gesto que, levando consigo uma camada de plástico, gera necessariamente uma célula que envolve o homem. Através do gesto nasce essa arquitetura viva biológica, que, apenas terminada a experiência, se dissolve. A expressão corporal adquire aí uma importância essencial, pois é através da mesma que se constroem as células: abrindo os braços, criando com as pernas separadas “túneis” por onde passam os outros, etc.

Não me considero uma precursora, pois o que proponho já é expresso diretamente pelos hippies na sua maneira de viver que funde o sentido poético no próprio existir. Nós, propositores, podemos talvez servir de ponte entre os hippies e a sociedade atemorizada pela sua intensidade de ser e viver. Agora que o artista perdeu de fato o papel pioneiro na criatividade, tornou-se “respeitado” dentro de um organismo social já em dissolução. Ao ser digerido de imediato pela sociedade, o “artista” a inocula com o vírus do novo modo de existir. Ao digerir o objeto, o “artista” passa a ser digerido pela sociedade.

 

 

Publicado em Arte Brasileira Hoje, coordenado por Ferreira Gullar
(Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973). pp. 159-160.

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